segunda-feira, 22 de outubro de 2018

O dia em que parei de assitir TV Aberta! (Parte I)

A TV continua como o meio de comunicação mais influente do mundo, tendo consolidado o monopólio do entretenimento e da informação da maioria dos lares domésticos ao ponto de influenciar a formação cultural e social de um povo e isso tudo em escala mundial.

O sistema televisivo brasileiro surgiu em 18 de setembro de 1950 e de lá para cá vem relegando ao esquecimento outra tecnologia até então dominante: a rádio.

Seu destaque e importância é tão alto que, por mais estranho que possa parecer, em 2012, tínhamos mais lares com televisão que com geladeira, o que nos leva a crer que uma parcela das famílias brasileiras estavam optando em dar prioridade a compra da primeira TV que a uma geladeira, conforme pesquisa abaixo:

 “O número de domicílios particulares que têm pelo menos um aparelho de televisão em casa ainda supera o dos que têm geladeira, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2011, 59,4 milhões de lares tinham televisão – 96,9% do total. Já o número dos que tinham geladeira era de 58,7 milhões (95,8%)”.

Isso demonstra o quanto a TV (ainda) é importante! Ao ponto em que se é preferível comprar um objeto que oferece apenas entretenimento e informação que outro aparelho com a função de conservar os alimentos.

No cenário brasileiro, a emissora que possui maior destaque é notoriamente a Rede Globo onde há anos tem conseguido contar com a maior audiência nos mais variados horários possuindo a maior variedade de programas o que lhe garante o maior faturamento com comerciais.

E eu, como todo brasileiro, costumava ser aficionado por televisão, tendo os mais diversos programas de TV, dos mais variados canais inseridos na rotina diária onde a perda de um capítulo de qualquer programa era causa de uma falta interior por não saber o que se passou neste ou naquele programa.

Grande parte da população, ainda possuem o hábito de “maratonar” as novelas da rede globo, a partir do momento que se chega em casa, para assistir malhação até o jornal nacional, para enfim encerrar o divertimento com a última novela da noite, a importantíssima novela das “8”, que na verdade passava as nove, e se o sono não batesse, porque não encerrar com mais um programinha da noite, fosse o caceta e planeta ou outra série qualquer.

No entanto, veio o dia em que tudo mudou! Em uma noite qualquer, sem sono, resolvi experimentar o elogiado programa: “a diarista”, e apesar de ser um programa de humor sem causar os risos esperados de uma série de humor, mas como todo programa global, o suficientemente bom para prender a atenção sem saber o telespectador o porque de continuar a assistir aquilo me deparo com uma cena que me deixou no mínimo surpreso.

A protagonista, marinete, interpretada por Cátia Rodrigues, tinha sido contratada para trabalhar na limpeza da sede olímpica do Pan-Americano realizado no rio de janeiro em 2007, e nesta cena específica, observo a personagem Marinete limpando uma calçada e enquanto a mesma varria passavam pessoas jogando papel no chão e diante esta situação a diarista se irrita com os pedestres e os chamam de mal educados? Porcos? Sebosos? Nenhuma das alternativas anteriores e sim de PARAIBANOS!

Ou seja, associa a origem de um grupo de pessoas a práticas reprováveis como o de sujar via pública, como se falta de educação fosse exclusividade de uma região do nordeste.

Eu fiquei ofendido, não quis saber do programa por um tempo, abstrai e resolvi dar uma segunda chance, assistir a mais um episódio, no entanto, o estrago já tinha sido feito, pois aquela ofensa tinha despertado o sentimento crítico e na segunda chance de assistir ao extinto programa “a diarista” comecei a observar o papel da grande amiga de Marinete, a Solineuza Alves interpretado pela talentosa Dira Paes, sempre destratada e apelidada de “POIA” pela personagem Marinete.

A “poia” deixava claro, que se tratava da personificação do que significava ser nordestino para os roteiristas daquele programa: uma pessoa de nome incomum, burra e fofoqueira, incapaz de fazer as coisas certas e sempre se meter em atrapalhadas, incapaz de reagir as bufadas da amiga marinete. Em dois episódios fica claro que a Solineuza era nordestina, porque além de ter a pele escura era a única que gostava de forró.

Felizmente, o programa “A DIARISTA”, chegou ao fim em 31 de julho de 2007, e apesar de ter um fundo estritamente social, mostrando de forma caricata a realidade das guerreiras mulheres que trabalham como diaristas para sobreviver, denunciando os patrões que não valorizavam o trabalho das diaristas seja através do pagamento ínfimo pelo árduo trabalho ou reagindo com desprezo a digna profissão. No fim, a série me deixou claro em apenas dois episódios que faziam uso de esteriótipos, negativando a origem do povo nordestino.

O descortinar dessa sutil artimanha, incentivou-me a observar os demais programas da rede globo com outros olhos, sob a ótica de um senso crítico incontrolável e voraz comecei a observar que as famosas novelas das “8” utilizavam a mesma artimanha, e tinha o enredo bastante similar onde todas as novelas da rede globo que eu tinha assistido até então se concentrava em dois núcleos principais: o núcleo elitizado, onde a maior parte da trama se passava na família rica, e o núcleo popular, com bem menos poder aquisitivo que o primeiro, com a função unicamente de fazer graça, ou seja, de ser responsável pelo humor da trama, e independentemente do enredo a construção da novela era alicerçada no mesmo molde com raríssimas exceções.

Casuisticamente, as pessoas que trabalhavam como empregados domésticos na casa da família “rica”, eram pessoas negras e pelo sotaque, claramente nordestinas, relegados ao papel de “fofoqueiras”, e o padrão se repete entre tantas novelas que deixa claro que para os roteiristas seja improvável uma pessoa em plena ascensão social trabalhar como empregado doméstico e usar sua renda para pagar a faculdade e futuramente conseguir um emprego que lhe remunere melhor.

Por sua vez, comecei a observar que os demais programas globais orbitavam ao redor da temática retratada na novela da vez, desde manhã cedo, programas de culinária e de entrevistas não passam de uma extensão das novelas, entrevistando “especialistas” para debater o tema retratado na novela principal com direito a irretocável opinião dos protagonistas.

Inclusive programas que deveriam ser jornalísticos assumem a mesma função como o fantástico, dando maior enfoque ao tema novelístico, onde até as notícias deixam de ser narradas para serem apresentadas como uma peça teatral com o apelo meramente emotivo recorrendo ao descarado sensacionalismo.

E o são os dois problemas que vejo nisso: primeiro a impressão que não existe outra realidade que não seja a estampada no roteiro do programa, segundo que algumas tramas, por mais bem-intencionadas que sejam, fazem uso de ferramentas reprováveis como a reprodução de estereótipos nada condizentes com a realidade.

O que me incomoda em uma rede de TV se sustentar unicamente em novelas e possuir toda a sua grade de programas gravitando ao redor dos temas apresentados na novela é que não existe o mínimo de compromisso com a verdade, não respeitam as diferenças regionais, e distorcem a realidade pregando esteriótipos como se o indivíduo retratado fosse a cópia fiel da cultura de um povo.

Não é a toa que o preconceito regional é tão forte no Brasil uma vez que o instrumento fomentador de informação e modulador cultural distorce a realidade para vender um produto de má qualidade.

Como o sulista pode nutrir uma concepção que se aproxime da realidade de uma região como o nordeste quando o unico divulgador desta cultura é a TV aberta com uma programação baseada em esteriotipos? 

Infelizmente, o analfabetismo funcional é tão forte, que para muitos que assistirem a uma cena onde uma má conduta é associada a origem de uma pessoa, levará como uma verdade, e copiará o comportamento por desconhecer a verdadeira cultura de uma região.

E por não concordar com a conduta da malfadada emissora, é que prefiro os livros, os jogos e o streaming  a continuar a assistir programas que difamam nosso povo brasileiro.


Referências Bibliográficas:

http://g1.globo.com/economia/noticia/2012/09/numero-de-casas-com-tv-supera-o-das-que-tem-geladeira.html. Acessado em: 20 de outubro de 2018.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O dia em que parei de assitir TV Aberta! (Parte I)

A TV continua como o meio de comunicação mais influente do mundo, tendo consolidado o monopólio do entretenimento e da informação da maio...